Toda empresa que me procura reclamando do time de vendas acha que tem um problema de gente. Quase sempre tem um problema de conta.
O vendedor não é preguiçoso nem desleal. Ele faz exatamente aquilo que a empresa paga para ele fazer. Se o modelo remunera volume, ele vende volume — inclusive com desconto que come a margem. Se remunera só o fechamento, ele abandona o cliente no dia seguinte à assinatura. Se remunera pouco e tarde, ele sai. E ele está saindo: o tempo médio de permanência no emprego no Brasil caiu para menos de sete meses, e cerca de 62% das empresas dizem ter dificuldade para contratar ou segurar gente. Em vendas, que sempre foi a área de maior rotatividade, isso é pior.
A pergunta certa não é “quanto pagar”. É “o que eu quero que aconteça, e o meu modelo de pagamento está pedindo isso?”.
Comissão pura — sem fixo, sem garantia — é um modelo honesto, mas serve para pouca gente.
Ele funciona quando três coisas são verdadeiras ao mesmo tempo: o ciclo de venda é curto, o vendedor traz o próprio cliente e o produto praticamente se vende sozinho depois da apresentação. Representante comercial autônomo de linha consolidada é o caso clássico.
Fora disso, comissão pura cria um efeito perverso: o vendedor precisa comer todo mês. Se o ciclo é de noventa dias, ele vai fazer o que dá dinheiro em trinta. Vai empurrar o item fácil, dar o desconto que fecha hoje e ignorar o cliente grande que só decide no trimestre que vem. Você não contratou um estrategista comercial; contratou alguém com pressa.
Não existe número mágico, mas existe lógica. Quanto mais o resultado depende do vendedor sozinho, maior o variável. Quanto mais depende da empresa — marca forte, marketing que gera lead, técnico que faz o projeto —, maior o fixo.
Na prática, o que vejo funcionar:
A regra que eu uso para conferir: se o vendedor bater exatamente a meta, o pacote total precisa ser competitivo com o mercado. Se ele só ganha bem estourando a meta, a meta está errada e ele vai embora antes de descobrir isso.
Essa é a decisão que mais dinheiro tira do bolso do dono, e a maioria toma no automático.
Comissão sobre faturamento diz ao vendedor: traga pedido, a qualquer preço. E ele traz. O desconto de 10% que ele deu para fechar reduz a comissão dele em 10%, mas pode reduzir a sua margem em muito mais que isso. A conta é assimétrica — ele perde pouco, você perde muito.
Comissão sobre margem alinha os dois lados. O vendedor passa a defender o preço porque o preço é o salário dele. Em trinta anos de campo, a mudança de faturamento para margem é uma das poucas decisões que eu já vi melhorar o resultado sem custar nada para implantar.
Duas ressalvas honestas: exige que você saiba a margem por produto (muita empresa não sabe) e exige transparência, porque o vendedor vai querer conferir a conta. Se você não pode abrir o número, use uma tabela de percentuais por faixa de desconto — o efeito é parecido e não expõe o custo.
Não é o percentual. Quase nunca é o percentual.
Repor um vendedor custa recrutamento, treinamento e o tempo em que a carteira fica órfã — na maioria dos casos, uma fração relevante do salário anual da posição. Ajustar o modelo é sempre mais barato que repor gente.
Primeiro, calcule o custo total real do variável. Comissão tem DSR, reflexo em 13º, férias e encargos — o percentual combinado nunca é o custo final. Faça essa conta antes de qualquer promessa.
Depois, rode o modelo novo sobre os últimos doze meses reais de vendas. Quem ganharia mais? Quem ganharia menos? Se alguém do time perde muito, você não tem um modelo, tem um conflito marcado.
Por fim, anuncie com prazo. Regra nova entra no início de um ciclo, com transição — nunca no dia 20 do mês.
Se eu tivesse uma tarde para arrumar isso na sua empresa, faria nesta ordem: descobrir a margem real por linha de produto, checar se a meta do ano passado foi batida por mais da metade do time, calcular o custo total do variável com encargos e só então desenhar o modelo. Preço, meta e comissão são a mesma conversa — quem trata como três assuntos separados paga caro nos três.
Defina a base (faturamento ou margem), o percentual e o gatilho. O caminho mais saudável é comissionar sobre margem de contribuição: assim o desconto que o vendedor dá reduz o ganho dele na mesma proporção em que reduz o da empresa. Sobre o percentual, some sempre DSR, reflexos em 13º, férias e encargos para saber o custo final — o número combinado nunca é o custo real.
Depende de quanto o resultado depende do vendedor. Venda transacional de ciclo curto sustenta algo próximo de 50/50; venda consultiva B2B de ciclo longo pede 70/30 ou 80/20 a favor do fixo, com aceleradores acima da meta; varejo de loja pede fixo dominante com variável coletivo. A régua final: batendo exatamente a meta, o pacote total tem de ser competitivo com o mercado.
Sobre margem, quase sempre. Comissão sobre faturamento cria uma assimetria: um desconto de 10% custa 10% da comissão do vendedor, mas pode custar uma fatia muito maior da margem da empresa. Comissionar sobre margem faz o vendedor defender o preço. Exige conhecer a margem por produto; quem não tem esse número pode usar uma tabela de percentuais por faixa de desconto.
Pode, e às vezes precisa — mas nunca no meio de um ciclo. Antes de anunciar, rode o modelo novo sobre os últimos doze meses reais de vendas para ver quem ganharia mais e quem ganharia menos. Mudança de regra no meio do jogo é a principal causa de perda de bom vendedor, mais do que o percentual em si.
Na maioria dos casos o motivo não é o percentual: é meta que ninguém bate, pagamento lento ou difícil de conferir, carteira distribuída de forma desigual, mudança de regra no meio do jogo ou um gerente que só cobra relatório e não vende junto. Corrigir esses pontos costuma custar menos que repor a pessoa.

Antes de trocar o vendedor, confira estas causas — quase sempre o problema não é esforço.
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