Como contratar um bom vendedor (e não descobrir o erro só seis meses depois)?

Vendas 8 min de leitura · 12 de outubro de 2026

Contratar vendedor é a única contratação em que o candidato é, por profissão, especialista em convencer. Ele chega bem vestido, olha no olho, conta histórias boas e sai da sala deixando a impressão de que o problema de vendas da empresa acabou. Seis meses depois, o dono está olhando para uma carteira parada e se perguntando onde foi parar aquela pessoa da entrevista.

Em 30 anos de mercado, participei de muita contratação de vendedor, e as que deram errado tinham quase sempre a mesma origem: a empresa escolheu pela simpatia e pela pressa, não por critério. A vaga estava aberta havia semanas, a meta apertando, e o primeiro candidato que "tinha cara de vendedor" levou.

Este artigo é um roteiro para fazer diferente. Não exige departamento de RH nem teste caro. Exige decidir antes o que você procura, e ter a disciplina de checar isso em vez de se deixar vender.

Por que é tão fácil errar na contratação de vendedor?

Porque a entrevista mede a habilidade de se vender, e não a de vender o seu produto para o seu cliente. Quem contrata por impressão costuma contratar o melhor candidato, não o melhor vendedor.

Há três armadilhas que se repetem.

A primeira é confundir comunicação com venda. Falar bem ajuda, mas venda é sobretudo ouvir, perguntar, organizar a carteira e voltar ao cliente no dia combinado. Muito vendedor excelente é discreto na entrevista, e muito candidato brilhante some depois do primeiro "vou pensar".

A segunda é contratar o currículo do concorrente. "Ele vendia para a empresa tal, vai trazer a carteira." Às vezes traz. Na maioria das vezes, o cliente comprava da empresa, não do vendedor, e o que chega é um profissional acostumado com outra marca, outro preço e outra estrutura por trás.

A terceira é a pressa. Vaga aberta dói todo dia, e essa dor empurra para o primeiro nome aceitável. Só que vendedor errado custa mais do que vaga aberta: são meses de salário, clientes mal atendidos, tempo do gestor e, no fim, uma nova contratação. Quando a pressão vem de um time que não bate meta, vale conferir antes se o problema é mesmo falta de gente.

O que definir antes de abrir a vaga?

Três coisas: que tipo de venda essa pessoa vai fazer, que resultado se espera dela em 90 dias e quanto ela vai ganhar. Sem isso, qualquer candidato parece servir.

"Preciso de um vendedor" não é descrição de vaga. Vendas diferentes pedem pessoas diferentes, e é aqui que a maioria das contratações já nasce torta. Antes de anunciar, responda:

Feche também a remuneração antes da primeira entrevista. Bom vendedor pergunta como ganha, e resposta vaga afasta justamente os melhores. Se o modelo ainda não está claro, comece por como remunerar o time de vendas.

Onde encontrar bons vendedores?

Bons vendedores quase nunca estão procurando emprego. Os melhores nomes vêm por indicação de clientes e fornecedores, de quem já atendeu bem a sua própria empresa e de dentro de casa.

Anúncio de vaga funciona, mas traz principalmente quem está disponível, e vendedor que entrega resultado raramente fica disponível por muito tempo. Vale abrir outras portas ao mesmo tempo:

Uma observação sobre setor: experiência no seu segmento ajuda a encurtar o aprendizado, mas não é o critério principal. Prefiro alguém disciplinado e curioso vindo de fora a um veterano do ramo com vícios difíceis de tirar.

O que perguntar na entrevista?

Pergunte sobre o que a pessoa fez, não sobre o que faria. Passado concreto, com números e nomes, é o melhor indicador que uma entrevista consegue dar.

Pergunta hipotética recebe resposta ensaiada. "Como você lida com objeção?" rende um discurso bonito. "Conte a última venda que você perdeu e por quê" rende a verdade. Algumas perguntas que uso:

Preste atenção em três sinais. Quem vende de verdade sabe os próprios números de cabeça. Quem tem método descreve rotina, não inspiração. E quem assume responsabilidade fala "eu errei aqui", enquanto o vendedor problemático perde todas as vendas por culpa do preço, do produto ou do antigo chefe.

Repare também em quanto ele pergunta. Candidato que não quer saber quem é o seu cliente, como é o produto e por que a vaga abriu provavelmente também não pergunta nada ao comprador. E faça o que quase ninguém faz: ligue para as referências, de preferência para um ex-gestor e para um ex-cliente.

Vale a pena fazer um teste prático?

Vale, e é a etapa que mais separa discurso de prática. Uma simulação de vinte minutos mostra mais do que uma hora de conversa.

O teste não precisa ser sofisticado. Três formatos simples resolvem:

Avalie o preparo mais do que o brilho. Quem recebe o material e chega sem ter lido está mostrando exatamente como vai tratar os seus clientes. E quem desiste por achar o teste trabalhoso economizou o seu tempo.

Como conduzir os primeiros 90 dias?

Com plano escrito: o que aprender no primeiro mês, que atividade entregar no segundo e que resultado mostrar no terceiro. Boa contratação sem integração vira má contratação.

Muita empresa acerta na escolha e perde o vendedor na chegada. Entrega uma tabela de preços, um celular e um "qualquer coisa me chama". Um roteiro mínimo:

Reserve meia hora por semana com o novo vendedor nesse período. É ali que você corrige cedo e percebe se a pessoa da entrevista apareceu para trabalhar. Se a meta do ano já está desenhada, o tempo de aprendizado do novato precisa estar dentro dela, como explico em como definir metas de vendas.

E combine desde o primeiro dia o que acontece no fim dos 90. Se a atividade não aconteceu e não há sinal de evolução, encerrar cedo é mais justo para os dois lados do que arrastar por um ano. É esse desenho, do perfil da vaga à rotina de acompanhamento, que eu monto com as empresas que atendo em consultoria de vendas. Vendedor bom não é sorte de contratação: é consequência de critério na escolha e de gestão na chegada.

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Perguntas frequentes

Quanto tempo leva para um vendedor novo dar resultado?

Depende do ciclo de venda. Em venda de giro rápido, os primeiros resultados aparecem em semanas; em venda técnica ou de projeto, podem levar alguns meses. Por isso, nos primeiros 90 dias, cobre atividade e aprendizado antes de cobrar faturamento.

É melhor contratar vendedor com experiência no meu setor?

Experiência no setor encurta o aprendizado do produto, mas não garante resultado. Disciplina, curiosidade e histórico comprovado de entrega pesam mais. Um bom vendedor de outro segmento aprende o seu produto; um vendedor sem rotina dificilmente muda.

Vale contratar o vendedor do concorrente?

Pode valer, com duas ressalvas. A carteira raramente vem junto, porque o cliente costuma comprar da empresa e não da pessoa. E quem troca de lado com facilidade por uma oferta pode trocar de novo. Avalie o profissional pelos mesmos critérios dos outros candidatos.

Devo contratar vendedor CLT ou representante comercial?

São modelos diferentes de custo, vínculo e controle, e a escolha depende do tipo de venda e da região a cobrir. Vendedor próprio dá mais controle sobre rotina e discurso; representante reduz custo fixo e atende praças distantes. Os aspectos legais de cada formato devem ser vistos com seu contador ou advogado.

Como saber se errei na contratação?

Olhe a atividade, não só a venda. Se depois de dois ou três meses o vendedor não cumpre a rotina combinada, não aprende o produto e sempre tem uma explicação externa, o sinal é claro. Se a atividade acontece e a venda não vem, o problema pode estar na oferta ou no preço.

Charles G. Martins
Charles G. Martins30 anos em estratégia, marketing e vendas · 2× Personalidade de Marketing Nacional · Prêmio ADVB/SC · autor de Descomplique!
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