Nunca foi tão fácil achar um mentor. Basta abrir o Instagram. E nunca foi tão difícil escolher um bom. Tem mentor de tudo, com promessa de tudo, e o empresário fica sem saber como separar experiência real de discurso bem editado.
Como mentor, eu vou tentar ser justo aqui: o que vale para escolher um mentor vale para me escolher também. Este texto é o roteiro que eu mesmo usaria se estivesse do outro lado da mesa, com o dinheiro da empresa e o meu tempo em jogo.
Esse é o primeiro filtro, e é seu, não do mentor. “Quero crescer” não é problema, é desejo. Problema é algo que dá para descrever numa frase e reconhecer quando foi resolvido:
Com o problema escrito, fica fácil ver quem já resolveu algo parecido — e quem só fala bonito sobre o assunto. Sem ele, você corre o risco de contratar o mentor mais carismático, e não o mais útil.
Um exercício que ajuda: imagine que a mentoria terminou e deu certo. O que mudou na sua rotina, nos seus números, nas suas decisões? Se você consegue descrever isso, já tem o critério para escolher o mentor e, mais tarde, para avaliar se valeu a pena. Se não consegue, vale gastar mais uma semana clareando o problema antes de sair procurando alguém.
Vale também separar mentoria de outras coisas. Se você precisa de alguém para fazer o trabalho, é consultoria ou contratação. Se precisa aprender uma técnica específica, é curso ou treinamento. Mentoria é para quando você precisa decidir melhor — e quer alguém experiente ao lado enquanto decide.
Experiência de campo, antes de certificado. Um bom mentor já esteve na cadeira em que você está, ou muito perto dela, e já errou o suficiente para reconhecer o erro de longe. Formação conta — eu mesmo investi bastante nela —, mas formação sem vivência vira apostila.
Perguntas que eu faria em uma primeira conversa:
A última pergunta é a mais reveladora. Quem tem experiência real tem histórias de fracasso e sabe contá-las sem drama. Se as respostas forem só sobre método, frameworks e número de seguidores, desconfie.
Outro ponto que costuma passar despercebido: a experiência do mentor precisa ter alguma distância do seu problema, mas não muita. Alguém que só conhece empresas gigantes pode propor soluções que a sua estrutura não comporta. Alguém que só conhece o seu setor pode repetir os mesmos vícios do mercado. O ideal é quem entende o seu tamanho e traz repertório de fora.
Mentoria é conversa. Se você não se sente à vontade para dizer “não entendi” ou “discordo”, ela não funciona, por melhor que seja o currículo do outro lado. Na primeira reunião, observe:
Estilo não é detalhe. Tem gente que precisa de alguém mais duro, que cobre prazo. Tem gente que precisa de alguém que ajude a organizar o pensamento. Nenhum dos dois é melhor — mas o errado para você desperdiça meses.
Alguns que eu vejo com frequência no mercado:
Nenhum desses sinais, sozinho, condena alguém. Mas dois ou três juntos são motivo suficiente para pedir mais tempo para decidir — e um bom mentor nunca vai se incomodar com isso.
E desconfie também do extremo oposto: o mentor que não assume compromisso nenhum com o seu resultado, que trata cada encontro como uma conversa solta. Mentoria não garante resultado, mas precisa ter direção. Você deveria sair de cada encontro com mais clareza sobre uma decisão concreta.
Antes de assinar, peça clareza sobre:
Mentoria boa tem começo, meio e fim claros — e deixa você mais independente, não mais dependente. Se depois de alguns meses você ainda precisa ligar para o mentor para decidir qualquer coisa, algo deu errado.
Sobre o investimento: compare o valor da mentoria com o custo do problema que ela resolve, e não com o preço de um curso. Se a questão é uma decisão de preço que mexe em toda a margem da empresa, ou a sua própria hora presa na operação, o problema costuma custar muito mais por mês do que a mentoria. Se a questão é pequena, talvez você não precise de mentor — e tudo bem.
No meu caso, são 30 anos de mercado em estratégia, marketing, vendas e pricing, com Mestrado Internacional em Administração e Direção de Empresas, MBA em Gestão Empresarial pela FGV, MBA em Inteligência de Mercado e Pricing e dois reconhecimentos como Personalidade de Marketing Nacional. Mas a primeira conversa serve exatamente para você ver se isso faz sentido para o seu problema — e, se não fizer, eu prefiro dizer isso logo.
Comece escrevendo o problema que você quer resolver. Depois procure quem tem experiência de campo nesse tipo de problema, converse com dois ou três nomes, avalie se o estilo combina com o seu e peça clareza sobre formato, acompanhamento e medição de progresso antes de assinar.
Onde ele trabalhou e que decisões tomou, se já atendeu empresas do seu porte e setor, um exemplo de problema parecido com o seu e o que foi feito, e um caso em que o resultado não veio. A resposta a essa última costuma ser a mais reveladora.
Promessa de resultado garantido com número e prazo, fórmula igual para todo tipo de empresa, nenhum compromisso com execução, pressão para fechar na hora e conversa centrada no estilo de vida do mentor em vez do seu negócio.
Na consultoria, o especialista faz parte do trabalho e entrega um diagnóstico ou plano. Na mentoria, quem decide e executa é o empresário; o mentor ajuda a pensar melhor, questiona e compartilha experiência. Mentoria serve para quando você precisa decidir melhor, não para terceirizar a decisão.
Depende do problema, mas precisa ter começo, meio e fim combinados desde o início, com indicadores de progresso. Uma boa mentoria deixa o empresário mais independente; se depois de meses ele ainda depende do mentor para qualquer decisão, algo deu errado.

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