Black Friday: vale a pena dar desconto ou é melhor ficar de fora?

Pricing 8 min de leitura · 26 de setembro de 2026

Todo ano, lá por outubro, alguém me pergunta: “Charles, a gente entra na Black Friday?”. E quase sempre a pergunta já vem com a resposta embutida. O concorrente vai entrar, o cliente vai esperar, então “não tem como ficar de fora”.

Tem, sim. E às vezes é a melhor decisão do ano. O problema nunca foi dar desconto. O problema é dar desconto sem saber quanto ele custa. Em 2026 a data cai em 27 de novembro, uma sexta-feira, e a Cyber Monday fecha o período no dia 30. Isso significa que setembro e outubro são os meses em que a decisão é tomada de verdade — margem, estoque, oferta e comunicação. Em novembro, só se executa.

Qual é a conta que ninguém faz antes de anunciar o desconto?

A conta do volume de empate: quanto você precisa vender a mais só para ganhar o mesmo dinheiro que ganharia sem desconto. Com 40% de margem e 20% de desconto, é o dobro.

É a conta do volume de empate. Desconto não sai do preço; sai do seu lucro. Se o seu produto tem 40% de margem e você dá 20% de desconto, você não perdeu 20% — perdeu metade da margem daquele item. Cada venda passou a deixar a metade do dinheiro que deixava antes.

Resultado: para ganhar o mesmo que ganharia sem desconto, você precisa vender o dobro. Não 20% a mais. O dobro. A regra é simples e cabe numa planilha:

Repare no último caso. Quando o desconto encosta na margem, cada venda a mais é prejuízo a mais. E isso é mais comum do que parece, porque muita empresa calcula a margem sem incluir taxa de cartão, frete, comissão e imposto sobre a venda. A margem que sobra de verdade é menor do que a da tabela.

Faça essa conta por produto, não pela média da loja. Na maioria das empresas que eu vejo, ela muda a decisão na hora: o item que parecia ótimo para promoção é justamente o que não aguenta desconto nenhum.

Quando a Black Friday faz sentido para uma empresa pequena?

Quando há estoque parado virando custo, quando a margem aguenta e a operação dá conta do volume, ou quando existe um plano para o cliente novo comprar de novo. Sem nenhuma dessas três, é trabalhar mais para ganhar menos.

Participar faz sentido quando pelo menos uma destas três coisas é verdade:

Quando estiver em dúvida, olhe para o caixa, e não para o faturamento. Uma Black Friday que dobra o faturamento e deixa o caixa igual — ou pior, porque você comprou estoque extra a prazo curto e vendeu parcelado a prazo longo — não foi uma boa Black Friday. Foi só uma Black Friday cansativa.

Se nenhuma das três é verdade, participar “porque todo mundo participa” é pagar para trabalhar mais. E há um custo que não aparece na planilha: o time que passa novembro apagando incêndio de entrega atrasada não está vendendo para o cliente que paga preço cheio.

Outra coisa que eu sempre pergunto: o seu cliente compra por impulso ou por planejamento? Em varejo de consumo, a data movimenta de fato. Em B2B, em serviço técnico ou em produto de compra planejada, o efeito costuma ser bem menor — e o desconto acaba indo para quem já ia comprar de qualquer jeito.

Dá para participar sem sangrar a margem?

Dá. Em vez de desconto no catálogo inteiro, separe os produtos em chamariz, estratégicos e preço cheio — e troque desconto por valor sempre que der.

Dá, e é o que eu recomendo para a maioria. Em vez de desconto no catálogo inteiro, separe os produtos em três grupos:

E troque desconto por valor sempre que der: kit, brinde, frete, condição de pagamento, serviço incluído, garantia estendida. Para o cliente, o benefício percebido é parecido. Para você, o custo costuma ser bem menor, porque um brinde custa o preço de custo e o desconto custa o preço de venda.

Um cuidado: não some duas vantagens sem fazer a conta das duas juntas. Desconto mais frete grátis mais parcelamento sem juros é a combinação que mais vejo transformar venda boa em prejuízo silencioso.

O que acontece com o seu preço depois de novembro?

O cliente aprende. Quem compra com 30% de desconto em novembro acha o preço cheio caro em março e passa a esperar a próxima promoção. Promoção frequente ensina o cliente a não comprar no preço normal.

Essa é a parte que quase ninguém pensa. Cliente aprende rápido. Se ele comprou com 30% de desconto em novembro, em março ele vai achar o preço cheio caro. E vai esperar a próxima promoção.

Empresa que vive de promoção ensina o cliente a não comprar no preço normal. É o caminho mais curto para a guerra de preço — e quem ganha guerra de preço é quem tem o menor custo, raramente a empresa pequena. Eu vejo isso há 30 anos: a promoção vira muleta, a muleta vira dependência, e um dia ninguém mais sabe vender pelo valor.

Por isso, se for entrar, deixe claro que é uma condição de data, com início e fim. E nunca, jamais, suba o preço antes para “dar desconto” depois. Além de antiético, o cliente compara, os sites de reclamação registram, e a confiança não volta.

E se eu decidir ficar de fora?

Fique de fora com intenção: explique o porquê, ofereça algo que não é desconto e use a data para cuidar de quem já compra de você.

Então fique de fora com intenção, não por omissão. Algumas saídas que funcionam:

Posicionamento é escolha. Ficar fora da Black Friday pode ser uma declaração forte de marca — desde que o seu produto sustente o preço. Se não sustenta, o problema não é a data, é o valor percebido, e esse é um trabalho para o ano inteiro.

Por onde começar ainda esta semana?

Liste os 20 produtos que mais vendem com a margem real, calcule o volume de empate, separe os três grupos e só depois pense na comunicação.

Um roteiro que cabe em uma tarde:

Preço é a decisão que mais mexe no lucro de uma empresa, e a Black Friday concentra essa decisão em poucos dias. Vale fazer com calma, com número na mão, e não no susto de ver o concorrente anunciar.

Quer revisar sua política de preço antes da data — e não só para ela? Comece pelo diagnóstico gratuito. Se o problema for mais fundo que a promoção, a consultoria em pricing olha margem, mix e posicionamento de preço de ponta a ponta.

Perguntas frequentes

Vale a pena participar da Black Friday sendo uma empresa pequena?

Vale quando há estoque parado para transformar em caixa, quando a margem aguenta o desconto e a operação dá conta do volume, ou quando existe um plano para o cliente novo voltar a comprar. Se nenhuma dessas condições existe, participar só por pressão do mercado costuma significar trabalhar mais para ganhar menos.

Como calcular o desconto máximo na Black Friday?

Use a conta do volume de empate: margem dividida por margem menos desconto. Com 40% de margem e 20% de desconto, você precisa vender o dobro para ganhar o mesmo. Se o desconto chegar perto da margem real, já descontados cartão, frete, comissão e imposto, nenhum volume compensa.

Quando começar a planejar a Black Friday 2026?

A data é 27 de novembro de 2026. Setembro e outubro são os meses de decidir margem, estoque, oferta e comunicação; novembro é para executar e corrigir. Quem começa a pensar em novembro normalmente acaba dando desconto no catálogo inteiro por falta de tempo para escolher.

Dar desconto na Black Friday prejudica o preço no resto do ano?

Pode prejudicar. O cliente que compra com desconto grande passa a achar o preço cheio caro e a esperar a próxima promoção. Por isso a condição precisa ter início e fim claros, e nunca se deve subir o preço antes para simular um desconto maior.

O que oferecer na Black Friday em vez de desconto?

Kit, brinde, frete, condição de pagamento, serviço incluído, garantia estendida ou entrega agendada. O benefício percebido pelo cliente é parecido, mas o custo para a empresa costuma ser bem menor, porque um brinde custa o preço de custo e o desconto custa o preço de venda.

Charles G. Martins
Charles G. Martins30 anos em estratégia, marketing e vendas · 2× Personalidade de Marketing Nacional · Prêmio ADVB/SC · autor de Descomplique!
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